quarta-feira, 30 de julho de 2008

O fim trágico da pequena Odete

Um pouco de poeira caiu-lhe em cima da cabeça, Odete olha para cima e vê uma pequena racha a formar-se no tecto. Poisa a navalha com a barata ainda a espernear na mesa, sacode a poeira do cabelo, levanta-se, limpa o seu vestido e começa a andar pela sala de forma a conseguir ver melhor a racha. Esta continua a aumentar até que um tímido raio de luz invade a sala.

Um misto de terror e curiosidade toma conta de Odete, ali a dançar a sua frente, um raio de sol, a única coisa de que tinha sido proibida de alguma vez tocar. Ela pondera durante um ou dois minutos e apesar de todos os avisos do seu Pai, decide aproximar-se.

Estica a sua pequena mão e sente o calor que o raio emana, era agradável, envolvente, e a sua luz de um dourado translúcido era bela, harmoniosa.

Com desejo de sentir mais, Odete tira o seu vestido preto, poisa a borboleta escarlate que adornava o seu cabelo e deixa-se banhar totalmente pela luz.

Um grito lancinante atravessa a casa, o seu Pai acorre a sala, mas era tarde demais, já nada restava de Odete. A sua Mãe finalmente chega, encontra o seu marido de joelhos, a chorar com o vestido numa mão e a borboleta na outra, a repetir constantemente.

“Eu disse-te para nunca te aproximares da luz…”

sábado, 14 de junho de 2008

The grieving soul.

Vi um fantasma virar a esquina, segui-o com curiosidade, ao entrar no beco olhei para a frente e encostada a parede lá estava ela, olhos azuis, cabelo negro, um vestido de noite a cobrir o seu belo corpo. Tentei aproximar-me, “Não te chegues, é perigoso”, comecei a ouvir um zumbido ensurdecedor e a visão a desfocar, fechei os olhos.

“Onde estou?” tudo o que vejo e ouço é um tecto branco e um gemido ao meu lado, apercebo-me que estou num hospital, “Ah, estou a ver que já acordou!”, ao meu lado uma enfermeira idosa, com uma expressão bondosa olhava para mim. “O que me aconteceu?” “ Como vim aqui parar?”, “Você foi deixado a nossa porta desfalecido e mais do que isso não sei”, de repente a imagem daquela rapariga invadiu a minha mente, “Obrigado, agora se não se importa gostava de descansar”, com isto a enfermeira levantou-se e foi embora.

Sai do hospital e fui para casa, pelo caminho pareceu-me ver aquele “fantasma” pelo canto do olho, mas quando olhei não estava lá nada.
Todos os dias quando ia para ao trabalho passava pelo beco e esperava encontra-la lá como naquela noite, mas não passava de esperança.
Os anos passaram, mudei de casa, de emprego, tive algumas relações falhadas, os meus familiares morreram, fiquei sozinho, a única coisa que continuo imutável, que me ajudou a manter a sanidade foi aquele beco e a imagem da rapariga.

Estou no meu leito de morte e todos os meus arrependimentos surgem no seu estado bruto, o que fiz, o que podia ter feito, quem amei e quem podia ter amado, um grande desgosto esburaca o meu coração, para tentar evitar a dor viro a cabeça na almofada e fecho os olhos.
“Não pode ser, é impossível” com toda a esperança perdida abro os olhos e lá estas tu, sentada no parapeito da janela deste velho louco, igual como se para ti todos estes anos não passassem de meros segundos.
“Quem és tu? “Porque só te mostras agora?” “Tanto tempo e ainda não adivinhaste? Julguei-te mais inteligente, afinal não me apaixono por qualquer humano”um sorriso iluminou-lhe a cara. “Já tinha posto a hipótese, mas nunca pensei que fosse verdade. Isto quer dizer que vou morrer finalmente? Escapar de toda a tristeza e monotonia que foi a minha vida” “Não meu amor, significa que finalmente vais viver a tua vida real, a meu lado para sempre”Ela estendeu-me a sua mão, senti o meu corpo a flutuar, pus-me em pé e olhei para o espelho, a cara que este reflectiu não era do velho decrépito deitado numa cama apenas a espera de morrer, mas sim a de um jovem nos seus 20 anos. Caminhei para ela e juntos de mão dada saímos pela janela e caminhamos pelo céu até se ver apenas o rasto nas estrelas deixado pelas nossas pegadas!

“Só mais uma pergunta, porque não me levaste logo naquele dia, porque me fizeste sofrer?”

” Ora meu amor, todos temos de sofrer para descobrir a nossa humanidade….”

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Untitled 3

I was 19 when I made a good friend. She was a demon.
She had a part-time job in a library owned by her father and, occasionally, she'd invite us there.
The library was quite nice. There were a lot of fireplaces and screams from the pits of hell. Our voices echoed in the distant ceiling of the entrance hall, coming back in strange deep tones and sounding more or less like 'BOGOHLAGATH! SHOBOROGOTH!!'
Those were happy days.
But, as these things usually go, she vanished one day, along with the library, without saying anything to anyone. Except to me.
She appeared in my room the night before and said 'I have to go now, John.' My name wasn't John, but she called me like that no matter what. She said it was the first name my mother gave me, before my hip grandmother came and showed her a list of unusual, new-age names.
'Will we ever meet again?' I asked.
'I don't think so, John. I seriously doubt it.'
'Why?'
'You are a good person, John. You help your parents. You will save people. You will give a life of happiness to your wife. And good people, John, usually end up in a completely different place than hell.'
And with that, she climbed my bedroom's window and jumped into the dark.

Well, time went on. I married. My wife couldn't have been happier than I was. We had children, a couple of hyperactive brats. We were even happier than before, if that was possible. We grew old, our children left our house. We moved to a quiet neighbourhood, into a house with no stairs. My children had children. We were so proud.
And then, with 79 years, I died. While I was lying sick on the bed, I muttered, '... as if this tiny cold would kill me,' and passed away, with less-than-dignifying last words.

My friend was right, I didn't end up in hell. I got a small occupation in this new place, installing newcomers and organizing tours. While these peaceful days go by, I wait patiently for the day when my wife comes to me.
And, sometimes, when we have a little free time, I fly to the lowest clouds hanging over Earth and I wait for her, my friend that I met so long ago.
'Hello, John!'
Sometimes, we play cards. Others, she tries to teach me how to play bridge.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Untitled 01.2


A
great hall, long as ages and dark as night itself. The smell of dampness filled it, making breathing harder, dulling the senses.
A
tiny square of light appeared in the ceiling and, with its brilliance, an endless stairway of stone was revealed, along with a dozen identical wooden doors across the room. Against the light, appeared Mr. Lifshitz, grumbling, rheumatics aching all over his body. He carried a cup of tea.
'Who had the brilliant idea of building a dungeon below a lake? Mrs. Lifshitz, obviously. Brilliant, just brilliant. Always the genius, my dear wife.'
He reached the floor, looking all around him for something familiar.
"Could she have installed dehumidifiers at least? Electric lights? Absolutely not, she'd said. Noir atmosphere, she'd said. Brilliant.'
He took a purple-coloured umbrella out of nowhere and pointed it up.
'Shine,' he said.
The point of the umbrella seemed to swell and gain a spherical form. It came out with a 'pop!', looking like a soap bubble. Letting go of the umbrella, Lifshitz waited as it raised in the air and bulged and grew. Several popping noises later, the entire umbrella vanished, leaving only bubbles behind, spreading across the empty space. All of a sudden, they lit up, filling the dungeons with globes of light.
'Much better,' and with that, he walked towards a door and knocked.


'Ma'am,' he greeted, before entering the room. The bubbles wouldn't be needed here, there were a couple of lamps, illuminating the small, dry quarters. A bed, a closet and a compact group of shelves with several books filled almost completely the space. Although cramped, the room wasn't claustrophobic. It had an air of cosiness and familiarity, reinforced by the indescribable decorations that only yarn and too much free time could have brought forth.
His wife hated it. It didn't have ambience, she'd said. In spite of being a villain, he'd said to her then, he wasn't an animal. Not with his prisoners, at least. Mrs. Lifshitz had giggled then.
Sitting in the bed, the woman looked intently at him. She knew all, or thought she did, that much was said by her deep-green eyes. She had no hair. Her white clothes, nice and simple, framed her head, giving her a clean, yet eerie, appearance.
'You,' she muttered, 'I knew-'
'Yes, my dear, you knew I was coming. Yes, I am very surprised by your astounding ability to predict the future. Oh my. What a shock.’
He paused to sip his tea, now cold as water and herbs could ever get.
‘Now, child,' he touched her chin, getting closer to her face, 'Tell me. How am I going to die?'

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Untitled 01

It was late night when Mr. Lifshitz learned that the Geriatric League of Evil wanted him dead. He was their leader, after all, it was only a matter of time.
'Good evening, Jules,' he said to the assassin pinned to the wall by a dozen canes and umbrellas, near an open window, 'How nice to find a young man so devout to the League.'
'Hulloh Mr. Lifshitz, sir,' he tried desperately to free himself. 'Sorry to intrude, sir. How does dis day find ya? Tir'dness, it seems, hasn't reached your bones just yet, sir.'
'True, true.'
Lifshitz walked over to the man and grabbed a polka-dotted yellow umbrella. He pointed it to Jules's face.
'Tell me, dear boy. Who sent you? Was it Cornelia? Maybe that demented old man, Virgula?'
'No, sir. 'Twas everyone, sir.'
'Aahh, excellent. And the reason for the mutiny?
'Your conservative measures, sir. They fink we should parley with the Vintage Peacekeepers, that it's on ev'ryone's best interests, sir. A lot of fancy words were involv'd, sir.'
'Oh, my. A lot of fancy words. So it is quite serious, this time.'
'Yes, sir. It is, sir.'
Lifshitz raised his left hand, then drew a circle in the air in front of Jules. The umbrellas and canes rattled and fell on the ground.
'Go, Jules. Tell them not to be so harsh in you.'
'Yes, sir. Fank you, sir. Night, sir.'
Jules ran and jumped out of the window. He screamed.
Poor boy, Lifshitz thought, those were probably the carnivorous petunias by his window. He bellowed by the window, into the dark, 'Ask them for a raise!'
'I will, si-AYYEEEEE!!'
Lifshitz closed the window.
'So, they want me dead. How nice, I think I'll go get myself a cup of tea.'

terça-feira, 20 de maio de 2008

A pequena Odete.

É neste mundo obscuro que encontramos a pequena Odete. Tímida e recatada, Odete nunca conheceu nada mais a não ser a sua casa cujo o aspecto era aquele de um palácio saído de uma história de encantar. É no salão de jantar, a sua divisão preferida que a encontramos, sentada nos degraus que dividem os dois pisos da divisória, a olhar para cima, a admirar através dos seus grandes e brilhantes olhos verdes, as imagens do seu tecto abobadado. Ela gostava bastante desta secção da casa porque, apesar de ser bastante ampla, ela sentia um conforto aqui que mais nenhum lugar lhe transmitia. Com as suas paredes de betão, cobertas de trepadeiras, onde pequenas rachas deixavam uma brisa fresca penetrar na divisão, os seus grossos pilares de mármore enegrecidos pelo passar do tempo e o chão de madeira de Rowan com algumas tábuas já a levantar, era aqui que ela se sentia feliz. Baixou os olhos, e começou a observar ao seu redor, o seu velho sofá de couro, com os braços de madeira trabalhados dando a impressão que destes rosas pingavam o seu sangue, continuava no mesmo sítio onde ela se lembrava de o ver desde que nasceu, ao seu lado como irmãos, dois cadeirões velhos, com o seu forro quebrado pelos anos de uso. À sua frente, uma barata passeava na mesa de Cedro, com cuidado a Odete tirou a navalhinha que o Pai lhe tinha oferecido, levantou-se, e sorrateiramente aproximou-se da barata, de repente um silvo trespassa o ar e um grito agudo é solto, com um movimento rápido, a rapariguinha espetou a barata na ponta da sua navalha. Levantou a barata ao nível dos seus olhos e com o sorriso inocente de uma criança, começou a observar a sombra projectada no tampo da mesinha, pela luz negra que um grande lustre que pendia do céu emitia.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Ola

Ola.
Eu sou o Pedro.Vivo numa mundo de fantasia,acordei um dia e todos quantos conhecia desapareceram.
Melhor,deixem-me esclarecer o que estou a dizer.
Os seus corpos ainda percorrem a terra,mas os olhos,os olhos,não brilham da mesma forma.
As suas vozes não tem energia, os seus pés arrastam-se.
Parece que como com os mortos vivos.

Ainda me lembro de antes me ir deitar ontem,e sentir o doce toque dos lábios da minha mãe na minha face.
e de lhe dizer ate amanha.

Parece que o amanha não chegou e todos estão presos num limbo entre o passado e futuro.Um tempo em que o presente não existe.

Abro a porta do frigorífico e abro os pulmões para a mescla de cheiros importados.Retiro o leite, fecho a porta
e encontro ao meu lado não a ma disposição matinal da minha família.mas um quente vazio de uma morna manha de verão.
Arrasto me a comer e subo para despertar a minha mãe.
Mas não obtenho resposta.abro a porta e encontro-a a olhar para o espelho incessantemente.

"Mae,esta tudo bem?"-
tocolhe no braço,mas esta gelada.
entro em pânico.
O telefone esta ali ao meu lado,a tentação de carregar nos botões é enorme,mas a linha esta morta.
Corro para a rua ,a porta nao abre.
Os pássaros não voam la fora, estão todos a pairar ligeiramente acima do solo,ou então os meus olhos traiem-me.
"Mae,mãe,mãe"
As escadas parecem que nunca mais acabam.
Deitada no chão,acabo por encontra-la.
"Mas que merda..."
O mundo não me quer.o mundo quer-me ver morrer.
Serei algo mais que um boneco nas maos de Deus. uma brincadeira doentia.
Porque não consigo ser ouvido,porque nao consigo ser visto?
Sera que existo? Serei algo mais que uma ideia?Serei um sonho,ou um pesadelo?
"Ola Pedro!"
Tremi.
"quem esta ai?"
"ah ah acalma te Rapaz,não tenho nada contra ti!"
Havia algo de familiar nele,algo naquela voz alegre, algo me fazia tremer.
" Que se esta a passar comigo,foste tu que fizeste tudo assim?"

"Eu? Nao.eu não tenho o poder para tornar transformar o tempo num agente de morte."
"Mas meu rapaz,tu és o nada. Tu és o vazio.Nem tu sabias o que irias ser.Mas tudo acabou."
"Querias parar o mundo, querias parar de sentir.Assim o tens,pequenito.Todo o futuro do teu mundo esta nas tuas mãos"

"O meu mundo esta nas minhas mãos?queres dizer o que com isso?"

" Nao percebes o poder que tens?tu és Deus,tu és rei e senhor da tua mente"
"Tu controlas o que os outros dizem,tu decides quem morre quem vive"
"Tu és a morte,tu és a vida,tu és a próxima evolução do homem"
"tu vais destruir,para voltar a construir"

Fui eu.Fui eu.
Sonhei todos estes anos com um novo começo,com a hipótese de mudar quem sou,de poder sonhar com o mundo de fora.
Agora tenho o poder de ser Imperador dos meus sonhos.
Substitui Deus.

Ola.
Eu sou o Pedro